20/09

Como entender os rótulos dos vinhos franceses

Saca a Rolha

Sempre vemos muita gente no restaurante confessar não entender nada sobre o vinho francês. Claro, conosco é bem mais simples, porque a maioria dos nossos rótulos está disponível em taça, ou seja, não é preciso arriscar a garrafa. Além disso, nossos garçons falam de sabor, não a língua dos especialistas.

Contudo, é verdade que a maneira de rotular os vinhos na França é bem complicada. Por isso, o post de hoje vem para ajudar a entender os rótulos dos vinhos franceses.

O terroir é o que prevalece

A primeira coisa tem a ver com os nomes das uvas. No Novo Mundo, aprendemos a beber vinho e ter pontos de referência com as castas: merlot, malbec, cabernet sauvignon… Um neófito, com passar do tempo, consegue reconhecer traços comuns entre vinhos de uma mesma uva (são chamados de “varietais”), seja ele do Chile ou da Argentina. Mas na França é outra história. Não se fala de um chardonnay ou um pinot noir, se fala de um Chablis, um Chateauneuf-du-Pape ou de um Nuit Saint-Georges. São vilarejos, não uvas. Como entender isso?

Primeiramente é preciso saber que a grande maioria dos vinhos franceses não é varietal (de uma uva só), mas compostos de uma mistura de várias uvas (chamamos isso de “assemblage”, ou corte). O consumidor tem que ter então outro ponto de referência, já que falar apenas das uvas não tem utilidade.

E para complicar, as poucas regiões que produzem vinhos varietais oferecem rótulos com sabores muitos variados. Por exemplo, todos os vinhos tintos da Borgonha (são 100 apelações diferentes) são feitos com uma uva só: a pinot noir. E ainda assim são grandes as diferenças entre eles.

Por isso prevalece o conceito de “terroir”. Esta palavra poderia significar: “o que torna um lugar especifico e único em termos de sabor”. De fato, na França (e outros países da Europa), há uma infinidade de microclimas dentro de uma mesma região. E no mesmo vilarejo são vários vinhedos com propriedades diferentes: exposição ao sol, inclinação do terreno (drenagem mais ou menos importante), tipo de solo. Tudo isso influencia o sabor da uva. E para terminar, tem o jeito especial de vinificar de cada produtor e de cada vilarejo. Por isso falar “um Chablis” diz muito mais sobre o sabor do que “um chardonnay”!

Como entender os rótulos dos vinhos franceses

A uva depende do sol

Esclarecido o conceito de terroir, a gente pode começar a ter uma ideia da intensidade dos vinhos em função de cada região. Isso porque, num país de clima continental e atlântico como a França, há uma diferença marcante de temperaturas entre o Norte e o Sul, apesar da superfície ser mais ou menos igual à de Minas Gerais.

Durante a primavera e o verão (fundamentais para o amadurecimento da uva), as regiões localizadas ao Norte são mais frias do que as meridionais. Sendo assim, os vinhos da Alsace, Val de Loire, Bourgogne e Beaujolais são mais leves. E os vinhos de Bordeaux, Languedoc, Côtes du Rhône são mais encorpados.

O motivo é simples: quando há menos sol, a uva amadurece menos e, logo, tem menos açúcar. E quanto menos açúcar para fermentar, menos álcool o vinho terá. É claro que há variações e exceções dentro de cada região. Mas, de forma geral, se pedir um Côtes-du-Rhône, você tem toda chance de beber um vinho mais encorpado que se for um Val de Loire. Já começa a ficar mais simples assim, certo?

Apelação de Origem

Um vinho AOP Saint-Emilion significa “Apelação de Origem Protegida” Saint-Emilion. Ou seja, ele foi produzido no vilarejo de Saint-Emilion, na região de Bordeaux. Então por que não está escrito Bordeaux na garrafa? Porque ler somente Bordeaux no rótulo garante apenas que as uvas utilizadas para produzi-los provêm da região, enquanto a definição de Saint-Emilion mostra uma proveniência mais restrita, apenas daquele vilarejo.

Isso se repete em muitas regiões: temos AOP Bourgogne e AOP Chablis (que pertence a Bourgogne, mas é muito mais delimitado). Temos AOP Côtes-du-Rhône e AOP Chateauneuf du Pape (também um Côtes-du-Rhône, porém somente daquele vilarejo).

Acontece geralmente que as apelações de regiões mais delimitadas são mais caras: quando um “terroir” obtém o direito de se distinguir de uma região mais abrangente é devida a alguma especificidade. A repercussão na lei da oferta e da demanda sempre vem junta e o vinho fica mais caro. Um AOP “Sancerre”, da região Val de Loire, será sempre mais caro que um AOP “Val de Loire”. Em teoria, ele deveria ser melhor. Porém na prática, não é sempre verdade, principalmente nas regiões ou apelações mais famosas do mundo, como Bordeaux, Champagne ou Chateauneuf du Pape. Por isso é bom contar com um vendedor em quem confia ou com um lugar que oferece a taça para não arriscar a garrafa de vez!

A fruta ou a madeira

Já entendemos a relação entre região e potência do vinho. Depois, vimos as diferenças entre regiões e sub-regiões. Agora temos uma terceira dica para você ter uma ideia do que vai beber: a madeira.

Embora não seja sempre escrito na garrafa a menção “vieilli en fûts de chêne” (envelhecido em barricas de carvalho), o bom vendedor já sabe informar se aquele vinho passou em madeira ou não. Tem o velho preconceito de que o vinho é melhor com madeira. Mas isso depende do gosto de cada um. A madeira tem, entre outros efeitos sobre o vinho, a particularidade de acrescentar vários aromas. Para os tintos, muitas vezes, é baunilha, cacau etc. Para os brancos é manteiga. A madeira também tem o efeito de amaciar os taninos do vinho.

Já os vinhos que não levam madeira sempre oferecerão (quando bem feitos) aromas mais apurados de frutas. Então se gostar de vinho bem frutado, com mais frescor, peça sem madeira!

Espero que este primeiro sobrevoo sobre os vinhos franceses tenha ajudado a esclarecer as suas dúvidas sobre como ler e entender os rótulos dos vinhos franceses. Agora, se houver qualquer pergunta, conte para a gente aqui mesmo nos comentários ou pelo nosso e-mail info@aubonvivant.com.br.

Tim-tim!

Comentários (1)

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  1. Anônimo disse:

    Parabéns pelo texto. Muito didático.

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